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04 December 2008 @ 08:55 am
UM SONHO NO CAROÇO DO ABACATE - Moacyr Scliar  
Um Sonho no Caroço do Abacate (1995) é uma novela de autoria do escritor gaúcho e natural de Porto Alegre, descendente de imigrantes judeus lituanos, Moacyr Scliar, um dos mais representativos autores do moderno panorama literário brasileiro. Nessa obra, Moacyr Scliar nos apresenta a história do jovem Mardoqueu, cujos pais são imigrantes judeus – sim, há um forte teor autobiográfico no livro – pobres que saem da Europa para fugir do Holocausto nazista, instalando-se no Brasil.

Narrado em primeira pessoa, pelo próprio Mardoqueu – ou Mardo, apelido preferível por ele achar o próprio nome ridículo -, a novela consiste numa trama iniciada com a descrição da situação dos seus pais na Europa – envolvendo dificuldades econômicas, perseguições e a ameaça crescente de Hitler -, que decidem fugir logo após a tomada do poder pelo ditador nazista. A partir dos alicerces já firmados no Brasil, inclusive o nascimento e criação dos filhos, desdobrar-se-ão conflitos que acompanharão Mardo freqüentemente - sobretudo por ser judeu -, a maioria conseqüentes de sua entrada num colégio católico, culminando em perseguições, ameaças e violência – seja física ou psicológica – advindas do preconceito intolerante por parte de vários colegas. O ambiente escolar, assim, toma a dimensão de um microcosmo, reflexo e vertente do macrocosmo cruel que é o mundo.

O clímax ocorre quando Mardo apaixona-se por Ana Lúcia, irmã de Carlos, seu grande e único amigo no colégio – por ser negro, Carlos compartilha com Mardo o título de alvo da intolerância no colégio, portanto gerando a proximidade e a união pela exclusão. Como o casal trata-se de um judeu branco e de uma mulata, sofrerão intenso preconceito e incompreensão, inclusive por parte das próprias famílias.

Com uma prosa simples, concisa e às vezes até coloquial, próxima dos jovens, porém sem um foco maior e mais agudo no estado psicológico dos personagens e suas idiossincrasias, Moacyr Scliar constrói um forte e atual relato da intolerância num país hipócrita cuja população nega ou pretere suas mazelas e preconceitos. E salienta como a intolerância abrange até mesmo vítimas da própria: os discriminados também discriminam - especificamente, no contexto da obra, pelas tradições e igualmente pelos medos infligidos aos judeus por séculos de opressão através de seus flageladores, edificou-se a brutal e milenar desconfiança dirigida aos semelhantes.

15/07/2008
 
 
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