O que Iago, o vilão de Otelo, um dos maiores dramas de Shakespeare, e Bentinho, o narrador-protagonista do romance machadiano Dom Casmurro, ambas tragédias da dúvida e do ciúme, têm em comum? Creio que, possivelmente, e mesmo provavelmente, os dois personagens sejam gays, bastando uma leitura bem apurada – e maliciosa – das entrelinhas. Será?! Partirei para uma breve dissertação a respeito.
Iago incita o guerreiro Otelo a desconfiar da fidelidade de Desdêmona, sua amada, instilando nele o veneno da dúvida e, assim, provocando-lhe ciúmes. Já Bentinho é agente e vítima do próprio ciúme, o que explicaria a provável analogia do seu nome (SANT+IAGO) com o do vilão shakesperiano. Sob uma das óticas possíveis e passíveis de análises, cujo senso de absurdo surgido a princípio se desvanece depois que colhemos e interpretamos determinadas pistas em ambas as narrativas, enxergamos um Iago gay, colocando Otelo contra sua esposa pelo fato de estar apaixonado pelo soldado (e, se desejava também destruí-lo, e não só a ela, denuncia uma paixão doentia, pautada por uma atitude rancorosa e vingativa); se Machado também foi assaz malicioso para perceber essa hipotética e ambígua entrelinha, construiu seu protagonista valendo-se de molde/alicerce similar, fortemente inspirado no clássico de Shakespeare. Ora, não há a tese de que Bentinho seria apaixonado por Escobar, inclusive sentindo ciúmes na verdade pela traição deste, e não a de Capitu?
P. S.: A tese de que Bentinho é gay (ou bissexual) não é nova, mas quanto a de Iago também sê-lo, não sei se algum teórico já a deduziu/abordou.P. S. S.: As similaridades e analogias entre Dom Casmurro e Otelo não são novidades e vão além do terreno das meras suposições de críticos, sendo de caráter concreto, portanto, pois lembremo-nos de que Machado de Assis era um grande admirador de Shakespeare e o tinha como uma de suas maiores e explícitas influências, conforme pode ser verificado através das notas de suas obras.








