You are viewing jorge_leberg

Jorge Leberg
22 February 2012 @ 04:34 pm
Tomado de chofre por esta reflexão um dia desses, embora não fora a primeira vez que tal hipótese se desenrolou em minha mente, posto-a assim como a escrevi no meu ~caderno de notas~, sem tirar nem pôr:

O que Iago, o vilão de Otelo, um dos maiores dramas de Shakespeare, e Bentinho, o narrador-protagonista do romance machadiano Dom Casmurro, ambas tragédias da dúvida e do ciúme, têm em comum? Creio que, possivelmente, e mesmo provavelmente, os dois personagens sejam gays, bastando uma leitura bem apurada – e maliciosa – das entrelinhas. Será?! Partirei para uma breve dissertação a respeito.

Iago incita o guerreiro Otelo a desconfiar da fidelidade de Desdêmona, sua amada, instilando nele o veneno da dúvida e, assim, provocando-lhe ciúmes. Já Bentinho é agente e vítima do próprio ciúme, o que explicaria a provável analogia do seu nome (SANT+IAGO) com o do vilão shakesperiano. Sob uma das óticas possíveis e passíveis de análises, cujo senso de absurdo surgido a princípio se desvanece depois que colhemos e interpretamos determinadas pistas em ambas as narrativas, enxergamos um Iago gay, colocando Otelo contra sua esposa pelo fato de estar apaixonado pelo soldado (e, se desejava também destruí-lo, e não só a ela, denuncia uma paixão doentia, pautada por uma atitude rancorosa e vingativa); se Machado também foi assaz malicioso para perceber essa hipotética e ambígua entrelinha, construiu seu protagonista valendo-se de molde/alicerce similar, fortemente inspirado no clássico de Shakespeare. Ora, não há a tese de que Bentinho seria apaixonado por Escobar, inclusive sentindo ciúmes na verdade pela traição deste, e não a de Capitu?

P. S.: A tese de que Bentinho é gay (ou bissexual) não é nova, mas quanto a de Iago também sê-lo, não sei se algum teórico já a deduziu/abordou.

P. S. S.: As similaridades e analogias entre Dom Casmurro e Otelo não são novidades e vão além do terreno das meras suposições de críticos, sendo de caráter concreto, portanto, pois lembremo-nos de que Machado de Assis era um grande admirador de Shakespeare e o tinha como uma de suas maiores e explícitas influências, conforme pode ser verificado através das notas de suas obras.
 
 
Rastreador: Parque Belvedere
(Re)lendo / Ouvindo: Naked Eyes - Emotion In Motion | Powered by Last.fm
 
 
Jorge Leberg
15 February 2012 @ 09:02 pm
O caso é crítico: o mais recente carregador made in China que comprei pro meu notebook queimou ontem (mais um pra minha coleção de bagulhos inúteis guardados naquele canto do quarto), e este inventa de me causar tal e tamanho desgosto justamente num momento em que minha situação financeira está bem... crítica, o que significa que estou mais pobre que literatura de Paulo Coelho, sem dinheiro para comprar outro até não sei quando. Ou seja: não postarei [com frequência] por tempo indeterminado nos meus blogs de textos, afinal um note sem restrições de tempo para uso se faz necessário à escrita e/ou edição final dos mesmos e quase não tenho acesso a outros PCs além do meu; esses dias dependerei principalmente da caridade - aka compartilhamento de carregador de note - de alguns amigos durante minhas tardes na UNEB, para onde vou de segunda a sexta a fim de filar a Net, e do meu primeiro carregador, o original, que só funciona a seu bel-prazer, em uma de cada dez a vinte tentativas. Quanto à Net do celular: sim, quebra muitos dos meus galhos em casa, permitindo-me a quase tudo de essencial, mas para escrever um post minimamente decente está fora de cogitação, convenhamos.
 
 
Jorge Leberg
13 February 2012 @ 05:14 pm
Lendo neste final de semana Niétotchka Niezvânova (Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman), do Dostô, e de repente ele aponta o dedo na minha cara e me solta essas verdades, servindo-se daquela estratégia esperta comum aos escritores de as dizerem através de um personagem ou narrador; algumas delas, inclusive, de uma forma tão crua e direta como nem meus melhores amigos (ou apenas eles, a depender da situação) teriam coragem de fazê-lo, e com as quais, confesso, ainda não consigo lidar sem complexos, embora tenha plena consciência das mesmas e, até certo ponto, de como elas se moldaram.

Sobre minha personalidade de modo geral (pág. 25):

“Quanto a você, é arrogante e, muitas vezes, inoportunamente orgulhoso, e te arriscas sempre a ofender alguma nulidade inflada de amor-próprio. Será esse o teu mal (...)”
“(...) você é impaciente, está doente à força de impaciência, não tem suficiente simplicidade, fica maquinando coisas em excesso, pensa demais e faz trabalhar muito a cabeça; você é audacioso em palavras (...).”
“Tem demasiado amor-próprio, mas escassa coragem.”

Sobre meu caráter melodramático:

“(...) dava a impressão de procurar sempre um motivo externo ao qual atribuir todos os fracassos, todas as tribulações sofridas.” (pág. 29)
“(...) há indivíduos que gostam de considerar-se humilhados e oprimidos, para poderem queixar-se em voz alta ou consolar-se em surdina, venerando a própria grandeza não reconhecida pelos demais.” (pág. 33)


Sobre meu sarcasmo (pág. 32):

"(...) ele falava sempre com humor e inteligência e sabia temperar suas histórias com observações corrosivas e biliosas e tiradas cínicas feitas para encantar certa espécie de ouvintes.”

E profetiza (pág. 25):

" (...) ficarás sozinho contra muitos e vão supliciar-te com alfinetadas."
“Os teus companheiros (...) não te animarão, nem hão de consolar-te; não apontarão em você aquilo que tem de bom e de verdadeiro. Mas, com maldosa alegria, destacarão cada erro teu, e hão de te mostrar justamente aquilo que você tem de ruim, aquilo em que se engana e, sob uma aparência de indiferença e desprezo, festejarão cada um dos teus erros (como se existisse alguém infalível!).”

E acertou, pois parte disso já ocorre.


Essas observações, algumas das quais perturbadoras, só reforçam a minha tese de que as melhores obras (para mim), ou a que nos causam as mais fortes impressões, são justamente aquelas que nos encantam - do contrário, não buscaríamos um refúgio na literatura - na mesma medida em que nos desencantam. Sobretudo quando se trata de um desencanto diante de si mesmo, um processo que se faz necessário ao amadurecimento e evolução de qualquer ser humano. Só evolui, ou tem a chance de evoluir, quem é deixado à mercê dos seus próprios erros, defeitos e preconceitos, "desprotegendo-se" dos mesmos, e a literatura é um dos melhores meios para adquirir tal consciência.

 
 
(Re)lendo / Ouvindo: Niétotchka Niezvânova - Dostoiévski / The Romance of the Telescope - OMD
 
 
Jorge Leberg
10 February 2012 @ 04:08 pm

A Legião Estrangeira - Clarice Lispector

Querem alguém melhor para começar bem o ano literariamente que Clarice Lispector? E creio que essa ilustre dama da nossa literatura dispensa apresentações. A Legião Estrangeira é mais uma das antologias da minha quase conterrânea e mais querida escritora - ao lado da Jo, claro - a entrar no meu currículo, abrigo de treze contos que a revelam em sua melhor forma. No decorrer da leitura, redescobri três contos: O ovo e a galinha, um dos mais filosóficos e enigmáticos da autora, e Viagem a Petrópolis, retrato da decadência física e mental de uma velhice esquecida e indigente pintado com uma ternura perturbadora, ambos também presentes em outra de suas várias antologias, Felicidade Clandestina, lida há alguns anos, além de Tentação, este meu primeiro contato com a autora, na 5ª série, flagrante do singelo amor à primeira vista entre uma menina ruiva e “sua outra metade neste mundo”, um cachorro basset, adivinhem, também ruivo.

Dentre os outros contos, destaco Os desastres de Sofia, evocação de uma lembrança da infância da personagem-título em que seus sentimentos contraditórios por um professor são a peça-chave, expressa por uma linguagem poderosamente metafórica e sugestiva; Mensagem, em que a ânsia metalinguística de um casal de amigos em dominar a (res)significação das palavras a fim de traduzir a si próprios e mutuamente, por vezes sob os signos da instabilidade, insatisfação e desconfiança juvenis, transfigura-se ao nível da ânsia angustiada do próprio homem em significar a si, aos outros e ao mundo através das palavras, tão sinuosas e traiçoeiras; e, por fim, a obra-título do livro, A Legião Estrangeira, na qual um alter ego da autora narra como testemunhou a convulsiva “transformação” de uma menina aparentemente madura demais para sua idade em simplesmente criança.

Contos Húngaros - Vários autores, tradução de Paulo Schiller

Esta antologia da Hedra de bolso foi a minha primeira incursão pela literatura húngara e, diferente de Salvador, rs, um lugar para o qual espero viajar mais vezes. O retrato da Hungria pré-I Guerra Mundial, sobretudo da capital Budapeste, é pintado por quatro grandes escritores do período, Deszö Kosztolányi, Géza Csáth, Frigyes Karinthy e Gyula Krúdy com diversas cores e texturas, cada qual ressaltando diferentes aspectos de um cenário tão particular e distante, embora nele transitem personagens com quem facilmente nos identificamos. Assim, experimentaremos o exotismo acolhedor da capital sentido por um estrangeiro através de O Errante de Veneza de Kosztolányi, passando pelo bem-humorado “diário” das desventuras escolares de um aluno em Professor, por favor de Karinthy, até desembocarmos no cosmopolitismo de Budapeste e na diversidade dos hábitos de sua população, conforme as distintas classes sociais e múltiplas ocupações profissionais, tão bem descritos pelo dueto de Krúdy O Último Charuto no Arabs Szürke/O Jornalista e a Morte, dois contos complementares mas narrativamente independentes nos quais a opulência e a miséria se encontram de modo singular.

Também destaco Ópio e Matricídio, ambos de Csáth, o primeiro um registro poético, idealista, inclusive no sentido filosófico, e quase que romântico das sensações “divinas” provocadas pela droga que o intitula (sim, o autor era viciado em ópio), e o segundo um recorte mórbido da infância/juventude de dois irmãos, órfãos de pai e criados pela mãe com certa indiferença, na gênese de sua provável psicopatia - perturbador pelo tom natural e direto, mais que pelas descrições explícitas propriamente ditas, com que as ações cruéis e sádicas de ambos são narradas; além de todos os quatro contos de Kosztolányi, que me conquistou logo de cara com seu estilo estrategicamente conciso e profusamente poético, dizendo tanto em tão pouco, a meu ver o Tchekhóv húngaro.

 
 
(Re)lendo / Ouvindo: Human's Lib - Howard Jones
 
 
Jorge Leberg

Sinopse: Este delicioso conto de Gyula Krúdy, relacionado a um duelo e se ocupando de um dos duelistas, um coronel dos hussardos, ao narrar como ele passa as horas anteriores ao encontro fatal, consegue não só dar uma imagem apropriada do coronel - que enfrentará um jornalista -, mas também evocar delicadamente a velha Budapeste em todo o seu esplendor, com seu luxo, sua pobreza, sua eventual sordidez, bem como as maneiras e, principalmente, os hábitos alimentares dos diversos estratos sociais. (Nelson Ascher, adaptado do prefácio da edição)

Esta é uma das mais intrigantes narrativas presentes na antologia Contos Húngaros, da Hedra de bolso, que reúne, além deste e outro do Gyúla Krúdy, mais oito contos de outros três importantes autores da literatura húngara - Kosztolányi, Csáth e Karinthy -, todos inéditos no Brasil e traduzidos diretos do húngaro por Paulo Schiller.

O detalhe interessante no par de contos de Krúdy selecionados para esta antologia é que ambos são co-relacionados, pertinentes ao mesmo duelo, no qual se enfrentarão um coronel e um jornalista - em virtude de um artigo escrito por este no qual ofendera um Cassino frequentado pelo outro, portanto uma “lavagem de honra” -, cada um deles tendo sua trajetória momentos antes do evento crucial retratada sob o seu ponto de vista, em narrativas distintas; o autor explora, assim, o caráter ambivalente de uma mesma situação (os “dois lados da questão”), referente a dois universos sociais discrepantes que, no entanto, encontrar-se-ão através de atitudes “desesperadas” dos protagonistas suscitadas pela iminência do duelo e, consequentemente, da morte (in)certa, um procurando se imiscuir no mundo do outro - ou que pensa ser o do outro -, a despeito de nunca sequer terem se visto e, no caso do militar, buscando obsessivamente  experimentar sensações provavelmente vividas pelo seu oponente. Um conto complementa o outro como um painel díptico, portanto mantendo suas naturezas narrativas independentes, cada personagem com uma existência literária autossuficiente dentro da obra que lhe é dedicada, sem a necessidade da outra história para uma se fazer entender.

Aliás, por sua extensão (são praticamente 25 páginas do livro) e pela importância que confere à evocação de memórias do/pelo protagonista, considero O Último Charuto no Arabs Szürke muito mais uma novela que um conto.

A história começa com o coronel já sentindo “uma fome assustadora, que ele jamais havia sentido”, logo na manhã do dia do duelo, que aconteceria à tarde. E não se trata de uma fome comum, como outra qualquer do dia-a-dia quando é chegada a hora da refeição, mas de uma fome diretamente relacionada aos hábitos alimentares do jornalista pobre (eufemismo para a época?) que será seu adversário, conforme o coronel o imagina, com parcos recursos e, portanto, alimentando-se em tavernas das mais baratas. Depois de conseguir uma recomendação de uma açougueira, de quem ele compra torresmo e pimentões, ao perguntar onde seria a melhor taverna para comê-los, o coronel chega, disfarçado em trajes civis para evitar ser reconhecido - visto se tratar de um homem de sociedade, frequentador do Cassino - ao Arabs Szürke, à taverna que empresta seu nome ao título da novela, onde, num ritual de mórbida comilança misto de comiseração pelo jornalista com quem duelará e autoflagelação pelo ato que cometerá em breve e talvez até em virtude de um início de culpa pela sua ostentação, ele tenta reproduzir vários dos possíveis passos alimentares daquele. Assim, neste ambiente oportuno para tal, o alta-patente consumirá os pratos mais miseráveis e baratos, por vezes degradantes e até enojantes, acompanhados de cerveja velha, de restos de picadinho deixados no fundo de uma panela e pontas de salame descartadas à ricota mais ardida.

A evocação de memórias do quartel pelo coronel; suas digressões a respeito das comidas, com direito a profusas descrições dos aromas e sabores - que reviram o estômago, mas também conseguem, não raro, dar água na boca, a depender da fome do leitor e da proximidade com algumas comidas mais estranhas ou nojentas de que gostamos, eu por exemplo adoro tripa -, assim como de hábitos tanto dos frequentadores quanto do casal dono da taverna; as comparações suscitadas por ele entre os pratos que geralmente se consome ou ele próprio está consumindo na taverna e os do Cassino; como ele imagina ser a vida do jornalista, sobretudo a provável alimentação deste: tudo é suscetível ao leitor, construímos uma imagem do cenário e das pessoas vívida em todos os detalhes, principalmente os relativos à alimentação. Sempre batendo na tecla “comida”, o narrador, submetido durante a maior parte da novela à visão do protagonista, parece querer sempre nos lembrar de que somos o que comemos, e que, portanto, nada melhor para retratar as classes sociais e a cultura de um povo - como a Budapeste no período pré-I Guerra, tão bem representada nas obras do Krúdy - que seus hábitos alimentares.

 
 
(Re)lendo / Ouvindo: Never Again - The Human League